Historicamente, até meados dos anos 80, tínhamos no Brasil uma famigerada reserva de mercado, que se por um lado incentivou o desenvolvimento de algumas tecnologias, infelizmente para nós, descontinuadas em favor de capital estrangeiro, por outro lado, jogou o país numa estagnação tecnológica, que foi responsável por um atraso de mais de uma década no desenvolvimento do “silício”.

Essa reserva de mercado, aliada ao monopólio instituído por algumas grandes corporações, elevou demasiadamente o preço do hardware, era a primeira onda da TI, levada somente pelo preço do hardware, como fator determinante a adoção de tecnologia, o que mantinha a TI concentrada penas nas grandes corporações, nas Instituições de Ensino e Pesquisa.

Vale lembrar que nesse período, praticamente toda tecnologia de software era limitada, com conhecimento restrito, porém existia a possibilidade de se ter acesso a maioria dos códigos fontes dos softwares, bastando para isso requisitar ao fabricante o acesso ao mesmo, para reescrevê-lo em parte ou então adicionar alguma funcionalidade, como o suporte a um drive específico. Na grande maioria dos casos o fabricante abria o código, mediante uma noa justificativa.

Depois disso, entramos numa nova era, quando o preço do hardware começou a decrescer abruptamente, e hoje seu preço é equivalente a um eletrodoméstico comum.

Nesse mesmo período começou a surgir um novo monopólio, agora de maneira nefasta, mantendo a proibição do acesso ao conhecimento e elevando assustadoramente o preço do software, que trouxe até a atualidade uma desconcertante supervalorização desses softwares, porém desconsiderando que a base para o conhecimento utilizado no seu desenvolvimento  é totalmente aberta, livre e legada por gerações de pensadores e de estudiosos, que permitiram que seus conhecimentos fossem replicados para toda a humanidade,de forma igualitária.

Esse monopólio criou um câncer em todo o mundo, chamado Copyright ou, mais comumente chamado no Brasil  de Lei de Patentes e Direitos Autorais.

Em troca dos altos valores impostos pelas empresas detentoras dessas patentes, há o que chamamos comumente de “briga pelo poder”, trata-se da disputa pelo maior crescimento nas balanças comerciais, versus faturamento buto, versus representatividade de base instalada.

Essa briga pelo poder gerou e ainda gera a exploração de riquezas de nações inteiras, colocando-as em alguns casos na mais absoluta miséria e sua exploração, por consequência uma população  que vive a base de Té¹

Evidentemente não podemos jogar apenas na conta das companhias de softwares, com suas patentes, a miséria e a exploração dessas nações. É claro que existem os políticos corruptos, os empresários inescrupulosos, e a inércia do povo, causada sobretudo, pela ignorância, ou seja, há um conjunto de fatores que levam a isso, mas sem dúvida, as empresas que dizem deter o conhecimento sob a capa de uma patente de software contribuem significativamente para a criação desse cenário caótico.

Porém finalmente, começamos a quebrar paradigma, criando tecnologia acessível tanto do ponto de vista técnico/educacional, permitindo o acesso as fontes de aplicação, quando do ponto de vista negocial, criando valor naquilo que existe em maior abundância no mundo: a mão de obra.

Começamos a quebrar esse paradigma, de maneira despretensiosa, oferecendo ao mercado uma solução tecnológica que, possibilite a valorização adequada dessa mão de obra, note que não estou falando de uma supervalorização, mas sim, de uma melhor remuneração, que permita ao profissional buscar seu aperfeiçoamento crescente, melhorando a cada dia a sua condição técnica, de modo a termos no mercado, massa crítica apta ao trabalho, profissionais melhor remunerados, projetos mais bem cuidados, onde seus custos sejam consideravelmente reduzidos, inclusive no custo total de propriedade o famoso TCO.

E vai aqui  uma pequena observação: afaste-se correndo de qualquer um que te diga: “quero desenvolver software livre sem subsídio e sem propósito de ganhar dinheiro”, pois isso é pura utopia, mas ainda se essa pessoa disser a você que a sustentabilidade do projeto é problema dela, porque isso é anti-profissional, o projeto já começou fadado ao fracasso e você tem sérias tendências suicidas, porque seguramente na primeira oportunidade de trabalho que surgir para essa pessoa, ela não pensará duas vezes antes de abandonar o projeto e abandonar você, se você estiver apostado todas as suas fichas nele. Ou seja, essa postura é conta producente e impede a adoção segura da tecnologia, por melhor que ela possa parecer, por isso compromete a sustentabilidade e continuidade do projeto, pelo menos se esse tiver o propósito de ser um produto com claras pretensões de crescimento no mercado, pois há que se lembrar que boa parte dos softwares livres somente começaram a ser adotados pelas empresas depois que adquiriram um ar profissional e muitas vezes um aporte de capital de alguma grande instituição, ou apoio substancial de desenvolvedores bancados por grandes empresas, ainda que o desenvolvimento não seja a sua atividade fim, um grande exemplo é a fábrica de automóveis norte americana FORD, que mantém uma equipe de desenvolvedores, com o propósito de gerar tecnologia e utilizá-la para atender as suas necessidades, toda via, repassando esse desenvolvimento para a comunidade open source mundial.

Um modelo razoável para ser pensado, por exemplo, a partir de um aporte feito na forma das bolsas de pesquisas, que sustentem pelo período de desenvolvimento a equipe que se envolveu na concepção do projeto, claro, desde que tal projeto tenha alguma relevância para a sociedade que o apoiará e custeará.

Outra opção de incentivo que pode ser feito aos desenvolvedores, pode ocorrer através das incubadoras e das faculdades, que podem receber e gerenciar os recursos e aportes feitos pela própria iniciativa privada, que gerará demanda para que o mercado se abra e se desenvolva cada vez mais.

Depois do início da implementação do produto no mercado, parte dos recursos advindo de cada projeto, deve ser retornado para equipe de modo a retroalimentar o projeto de desenvolvimento, bem como garantindo a sustentabilidade do mesmo.

Enfim, as projeções e perspectivas são grandes, basta que o mercado se abra um pouco mais e, ao mesmo tempo, que as instituições e , sobretudo, que a comunidade de desenvolvimento open source se organize de modo a aproveitar as oportunidades que surgirão desse movimento.

Fica claro que nesse mercado o usuário é o maior beneficiado, já que seu acesso ao conhecimento é irrestrito e absoluto. Ao mesmo tempo, só quem tem competência profissional se estabelece, porque quanto mais valorizada a mão de obra, maior a necessidade de qualificação profissional e de conhecimento, ou seja, o profissional que se estagnar, que não prosseguir permanentemente com sua capacitação vai gradativamente saindo do Mercado, por uma simples razão, ele parou no tempo.

Por outro lado, povo estudado e povo rico, ou seja, quanto mais ampliada a oferta de profissionais capacitados, mais gente buscando o conhecimento, logo mais pessoas buscando abrir seus horizontes intelectuais, o que se tornaria um grande risco aos governantes corruptos, aos empresários inescrupulosos e aqueles gananciosos que exploram sem consciência, pois quanto mais estudamos, mais somos capazes de discernir o certo do errado, mais aprendemos a criticar e argumentar e esse pode ser um dos principais caminhos para o desenvolvimento do crescimento igualitário entre os povos.

Concluindo, o software livre, deve ser, sem dúvida, uma das principais alternativas ao crescimento tecnológico e ao conhecimento das ditas nações emergentes, e também das nações menos privilegiadas economicamente, uma vez que possibilita o acesso a uma melhor formação profissional, a implementação de tecnologias mais baratas, e consequentemente ao enriquecimento interno dessas nações, através da valorização o capital humano.

Meu conselho? Estude muito, busque certificações técnicas, use software livre, e ganhe dinheiro tornando-se um profissional respeitável em TI.

¹ O Simbolo da miséria no Haiti é um biscoito feito barro, água e manteiga. Batizado de “Té”, a receita serve para tapear a fome.